quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre médicos e curandeiros

Ultimamente tenho conversado muito com o Dr Lincoln Pinheiro (@lincolnpinheiro). Conversamos muito sobre todos os assuntos, mais recentemente temos discutido muito sobre o GALO, nossa paixão que vive momentos meio delicados ultimamente.

Sendo assim, segue uma de suas crônicas, postada a pedido do mesmo.

SOBRE MÉDICOS E CURANDEIROS
Crônica Dedicada aos Doutores Getúlio Morato (@drgetulio) e Alessandro Carvalho (@alessandro35073), médicos e atleticanos.

Havia um paciente que padecia de uma rara e crônica doença.
Surgida há muitos anos, a princípio a moléstia não impedia que o paciente levasse uma vida normal, fosse amado por seus familiares – faço parte desta família – respeitado por seus amigos e temido por seus inimigos.
Com o passar dos anos, a doença foi se agravando e as internações se tornaram frequentes.
Vários tratamentos foram tentados. Médicos renomados foram chamados. Tentou-se a medicina alternativa. Nada dava resultado.
No ano passado, depois de tantos anos sendo pedido pelos familiares, chegou finalmente o mais famoso cirurgião, com mestrado, doutorado e p.h.d.
Experiente, foi professor até do filho de um rei europeu. É verdade que não teve sucesso trabalhando para a família real.
Inicialmente aclamado por todos, seu prestígio foi diminuindo à medida que o paciente piorava.
Receitava sempre uma dieta à base de pão com manteiga, mas toda vez o paciente deixava o pão cair com a manteiga virada para baixo.
Acusado de passar as noites jogando pôquer e não dar a devida atenção ao paciente, acabou sendo dispensado quando este já se encontrava há várias semanas na UTI.
O professor voltou para a Corte e foi ser médico particular de um perigoso marginal – o maior inimigo da nossa família – muito mimado e protegido pelas milícias por ser o favorito do mais poderoso cidadão do país – já falecido – dono do maior império de comunicação abaixo da linha do Equador.
Veio então um médico de muito prestígio e, aplicando um tratamento emergencial, conseguiu tirar o paciente da UTI.
Mas o novo médico nunca deixou de advertir que a doença era grave, com forte componente psicossomático, tratamento demorado e sujeito a efeitos colaterais. Pediu apoio e paciência à família.
A nossa família é muito grande, plural e tem um imenso amor pelo paciente.
Há ricos e pobres, brancos e negros e uma diversificada miscigenação étnica e cultural.
Alguns ramos da família são bastante místicos. Temos primos que acreditam em magia e encantamento; tios distantes acreditam que se deixar lixo amontoado no quintal, no dia seguinte o lixo se transforma em ratos.
Esta ala da família foi ficando impaciente com o tratamento demorado. Através das redes sociais começou a dizer que o “médico é burro”, que “seu anestesista é incompetente”, que “a culpa é do enfermeiro”.
Em uma tarde ensolarada de domingo, quando toda a família estava com a atenção voltada para Sete Lagoas, onde um jovem e valente membro de nosso clã travava a batalha final (na qual se sairia vitorioso) de uma memorável campanha, começou a circular nas redes sociais a informação de que o médico seria substituído por um pai-de-santo, o que foi confirmado na madrugada seguinte.
O curandeiro chegou com a fama de conhecer bem o paciente e de já ter salvado vários moribundos à beira do túmulo.
Assumiu o tratamento e depois de uma semana o paciente entrou em estado de coma.
Nota Explicativa:
O analfabetismo funcional gira em torno de 30% no Brasil. Muitos brasileiros não conseguem interpretar um texto. Daí porque a prudência desta nota explicativa.
Não tive a intenção de ofender qualquer crença religiosa nesta crônica, mas apenas exercer a liberdade de expressão.
Vivemos em um país democrático, com um Estado laico, onde cada um é livre para crer e seguir a religião que quiser.
Eu, da minha parte, continuo professando minha fé na Ciência e no Direito.
 Lincoln Pinheiro Costa
Twitter.com/lincolnpinheiro
                     “Clube Atlético Mineiro, o Time de Minas”