terça-feira, 12 de outubro de 2010

Chutando a Santa e outros assuntos

Foi no dia 15 de outubro de 1995 que o Bispo Sérgio Von Hélder, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) teve uma atitude no mínimo infeliz ao chutar a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A cena se agravou por esta ser transmitida em rede Nacional.

Mas o que mudou desde que esta cena foi transmitida até os dias de hoje?

Bem, folheando as três principais revistas publicadas no Brasil (Veja, IstoÉ e Carta Capital), descobri que o principal assunto destas é um tema de certa forma ligado a valores religiosos cristãos, que é o aborto.

Achei inicialmente estranha e exagerada a forma com que este tema ganhou destaque nos noticiários, achava apenas mais um factóide plantado pela extrema direita brasileira, inclusive corroborada por uma informação de meu amigo Lincoln pinheiro Costa, pontuando perfeitamente o episódio Mírian Cordeiro no segundo turno de 1989 onde o então candidato Fernando Collor acusou o então candidato Lula a ter forçado esta pessoa a abortar uma gravidez. (você pode ler o artigo aqui)

Pela repercussão, o que tenho notado é uma onda dizendo coisas como possível entrada do Brasil em um regime teocrático, pois caso José Serra venha a ganhar a eleição, pois com o apoio do Opus Dei e da TFP (organizações ligadas à ultra-direita católica; uma, que esteve à frente de governos fascistas na Europa – Opus Dei; e outra que serviu de base para a ditadura militar no Brasil – TFP) possam fazer com que o país seja submetido a um regime teocrático.

 Mas aí pergunto: Será que isso procede? corremos este risco?

Se juntarmos o episódio da santa em 1995, o episódio Mirian Cordeiro em 1989, este episódio recente do aborto, diria que tecnicamente já vivemos sob este regime, pois existem vários membros da Igreja Universal do Reino de Deus hoje ocupando cargos no legislativo, inclusive na base eleitoral do PT. Caso escancarado disto é a presença do Senador Marcelo Crivella (Sobrinho de Edir Macedo) na coordenação e organização das bases evangélicas.

Mas será que, ao tratar estas questões dogmáticas, os candidatos Dilma e Serra não estão ignorando outras minorias? Quando estas questões passarão a ser laicas e estruturais, visando ao bem-estar da população? Será que estes candidatos ainda não perceberam que existe diversidade religiosa no Brasil? Alguém tem dúvida de que o Opus Dei e a TFP, ou as duas juntas, são a mesma coisa que a as igrejas de Edir Macedo, Waldomiro Santiago, Malafaias e Garotinhos? qual a disposição dos candidatos (Serra e Dilma) se comprometerem com a efetivação do Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa? Será que os votos dos ciganos, judeus, muçulmanos, candomblecistas, umbandistas, católicos progressistas, quilombolas, índios, ateus e agnósticos valem menos que os dos neopentecostais e carismáticos? Ou será que para os nossos candidatos (desta enorme pátria-colonizada-cristã) só interessa o poder econômico e eleitoral dos grupos que defendem projetos de dominação e o extermínio das diferenças?

O mais interessante disso tudo é que caso José Serra venha a vencer a eleição em segundo turno, terá sérios problemas para governar, pois a bancada neopentecostal cresceu muito. O PR e o PRB – mantidos pela IURD – deram show nas urnas. Isso sem contar a eleição de diversos pastores e "ovelhas" deste rebanho em outros partidos, inclusive no PT. Este dado implicaria uma necessária composição dentro da Câmara Federal. Caso Dilma venha a se eleger, deverá haver uma certa composição com a ultra direita para poder governar, pois no Brasil, o que vale são interesses de grupos, não siglas partidárias, deverá sim ter que existir composição. Em resumo: sejam pentecostais ou seguidores da Opus Dei, estes sempre tentarão impor seus projetos. Projetos fascistas sempre buscam o bem deles, não da população.

Então, a partir de agora seria bom combinar o seguinte: Ou Dilma e Serra atestam que a partir de 2011 o Brasil assumirá definitivamente a sua vocação para um regime teocrático (para que nós, os eleitores, possamos escolher entre um governo de ultra-direita católica ou evangélica), ou os nossos candidatos se comprometem com ações laicas, que visem à garantia e manutenção de direitos para as minorias étnicas e religiosas, sob o risco de embarcarmos em um caminho sem volta.

E por favor, vamos parar de criticar apoios a Irã, China e Coréia do Norte, nós não estamos longe deles não. Se bobear, estamos até pior, pois eles admitem que são assim. Já a gente…

Bem, é melhor deixar pra lá, senão daqui a pouco vai ter gente me sugerindo mudar para estes países.